Página em Português

Chapéu Vermelho

Colocou o chapéu vermelho e partiu.

Nervosa, mas determinada.

O sol se punha, o ar estava frio,

E o bosque ao redor da cidade lembrava a paisagem de um pesadelo.

 

Seguiu pelo caminho que dava em uma clareira

E sentou-se no tronco de uma árvore caída

A esperar pelo que não se pode evitar.

 

A escuridão caiu sobre o bosque e os ruídos da noite tornaram-se mais altos.

Um par de esmeraldas surgiu por entre as árvores e veio em sua direção.

Sabia que era ele.

 

A garota do chapéu vermelho seguiu a fera até sua toca.

Ele podia farejar seu medo.

Achou que iria desmaiar, mas manteve-se firme. Havia a chance da vitória.

 

Olhos e nariz grandes, dentes afiados: tudo o que as outras disseram que ela veria.

Imaginou escutar a avó dizendo:

“Olhe bem dentro de seus olhos e ataque!”

 

Já faz alguns anos a cabeça do lobo enfeita a parede de sua sala de estar.

Um troféu de guerra.

 

Jack

Onde estão? Onde estão?

Onde estão os tesouros de meu pai?

Sei que devo resgatá-los

Mas de onde? Ele nunca me deu um mapa.

 

A vida é tão difícil!

 

A mãe me manda ir à vila com Branca Leitosa.

Eu deveria vender a vaca e voltar com algo

De que não lembro mais.

 

Agora a mãe está brava e eu, confuso.

Puxa, os feijões eram mesmo mágicos.

E este pé-de-feijão é muito alto.

 

Será que devo subi-lo?

 

 

 

 

 

 

 

João e Maria, vocês são uns ingratos!

 

Eles chegaram famintos e abandonados, como todos chegam.

 

Comeram pedaços de minha casa

E pensaram que eu não pediria nada em troca.

Crianças tolas da floresta!

 

O problema com crianças é que crescem e começam a ter ideias próprias!

 

Os pais as abandonam na floresta e elas vêm para mim.

 

E eu,

Eu sacrifico minha vida pela felicidade delas.

Encho sua barriga, finjo ser amável

Dou tudo que me pedem.

 

E então estabeleço meu pagamento:

Carne humana. Assada.

 

Por que a surpresa? Afinal, eu sou uma bruxa.

 

Ah, este forno é tão pequeno!

Alguém poderia me tirar daqui de dentro?

 

A Moça da Torre

 

Um bater de asas.

Uma janela aberta.

Uma criatura alada esperando pelo pássaro negro.

 

Há tempos voam juntos, apreciando a companhia um do outro e conversando sobre as coisas de seus mundos tão diferentes.

 

A bruxa amaldiçoa os príncipes que escalam a torre, mas falha em reconhecer o que chega voando.

 

Um belo dia ele pousou em sua janela e a moça o convidou a entrar.

Foi aí que o Príncipe Corvo conheceu a Moça da Torre.

 

Engraçado o jeito como as coisas de dão.

As pessoas só veem o que querem ver.

 

Uma jovem aprisionada em uma torre.

Uma bruxa que pensa ser sua dona.

 

Ela parte o coração da moça e até corta suas tranças.

 

Mas nunca, nunca suspeitará que Rapunzel tem um par de asas.

 

As Esposas

Estas velas? Vou te contar, meu menino.

 

Quando entrei no quarto sangrento,

Elas abriram aqueles olhos de cadáver e disseram:

“Foje, criança, foje enquanto há tempo”

Vozes fantasmagóricas que estranhamente carregavam um tom de carinho e preocupação.

 

Todas as mulheres de Barba Azul estavam agora naquele quarto.

 

Maria era uma pobre camponesa, morrendo de fome quando ele a tirou daquele casebre imundo.

Vestiu-a com seda e pérolas e então secou seu coração até a morte.

 

Catherina, a condessa italiana, era pura alegria e exuberância.

Como ele invejava isso!

Sua carruagem arrastou-a pela vila uma noite inteira

Até o pobre corpo dilacerado confundir-se com os farrapos de suas vestes.

 

Louisa, a pensadora, ou assim ela se imaginava, foi a que levou mais tempo para morrer.

Ele triturou seus ossos com um martelo, lentamente, e a jogou no quarto com as outras, ainda agonizante.

 

E eu, tua mãe, a mais jovem de todas, apaixonei-me pelo que julguei ser uma chama de vida em seus olhos.

Como eu estava errada. Era ódio!

 

Quase morri em suas mãos. Mas quando ele estava prestes a cortar minha cabeça, meus amados irmãos vieram me resgatar.

Os bons homens que me ensinaram a subir em árvores, pular nos rios , contar piadas, lutar e gargalhar, vieram em meu auxílio quando mais precisei.

 

Trouxeram três espadas. Uma era para mim. Juntos lutamos e vencemos o monstro.

 

Quando estava tudo acabado, recolhemos os corpos das mulheres e os enterramos.

 

Anos depois, quando teu pai chegou a esta vila, ninguém lembrava mais de nada. Todos esqueceram o quão monstruosos alguns seres humanos podem ser.

 

É por isso, meu filho, que eu acendo estas três velas todas as noites. Pela memória de minhas irmãs. Uma vela para cada esposa de Barba Azul, cujo destino foi tão diferente do meu.

 

 

 

 

 

Liberdade

 

Uma floresta cresceu dentro de mim.

As árvores chamavam: venha, venha.

Avistei um caminho e segui por ele.

Comecei a correr nas quatro patas.

Minha pelagem era macia.

Vi minha própria alma.

Liberdade.

 

A Outra Princesa

 

Uma ervilha? Uma ervilha?

“Quem a sentir, uma princesa será”

 

Sobre vinte colchões deitei. Vinte passos subi.

Perguntaram-me como tinha passado a noite:

“Dormiu bem, minha querida? “

“Sim, dormi.”

 

Enfrentei a fome, tempestades, e as chamas das fogueiras.

Senti a dor do parto e do isolamento.

Vi filhos chegarem e partirem.

Fui filha, mãe, esposa e irmã.

Mas uma ervilha, uma ervilhazinha, decidirá

Que tipo de pessoa uma mulher será.

 

Sim, eu senti sua presença embaixo dos colchões,

mas a tirei de lá e segui dormindo.

 

Não, senhor, eu não jogarei esse jogo de bancar a mulherzinha.

 

Uma ervilha, uma idiota de uma ervilhazinha

Jamais decidirá o que uma mulher será.

 

 

O Branco de Neve e as Sete Princesas

 

As sete apareceram um dia.

Sete mimadinhas.

 

“E o meu jantar? Vamos homenzinho idiota! Ei essa pulseira é minha!Odeio veludo: me deixa gorda! Não é justo: você tem mais tiaras do que eu! ”

E assim seguiram por horas.

 

“Por favor fique com elas um pouco. Só durante o verão.”

Implorou-me a madrasta.

Os sete monstrinhos de dentes afiados que ela tinha criado agora queriam comer seus olhos.

 

Não pude dizer não. Não sabia como.

Então elas chegaram com aquele espelho enganoso,

Que dizia a cada uma, separadamente:

 

“És a mais bela de todas”.

 

Eu era um escravo, fazendo tudo o que mandavam.

Eu, o mineiro solitário, com minha barba e cabelos brancos do tempo,

Servindo sete vampiras difíceis de contentar.

 

É por isso que um dia tive a ideia da maçã.

A madrasta conhecia bruxaria,

E eu tinha a coragem e o desespero de acabar com tudo isso.

 

Ah, como saboreei o momento em que as vi cair

uma a uma,

E tudo ficou quieto e tranquilo de novo.

 

Carta aberta a H.C. Andersen, autor.

 

Na primeira vez que usei meus sapatos vermelhos

Uma bela floresta cresceu em mim.

Fechei os olhos para vê-la:

Misteriosa, convidativa, sem fim.

 

Eu era muito jovem, e a visito desde então.

Ela me alimenta de folhas, raízes e ervas.

Repetidas vezes através dos tempos,

seus arroios me trouxeram consolação.

 

Uso sapatos vermelhos para entrar na floresta.

São meus guias.

Conduzem-me onde meu coração manda,

São cheios de magia.

 

Sr. Andersen, sinto muito

que seus sonhos não se tornaram realidade.

Dizem que o senhor não entendia de mulheres.

A julgar por suas histórias, acho que é verdade.

 

Cortar os pés de uma menina

Porque ela gostava de dançar…

Isso é crueldade sem limites,

É um absurdo de se pensar.

 

As meninas precisam de sapatos vermelhos

Para encontrar o caminho da floresta.

Deixe-nos ser criaturas da natureza, Sr. Andersen,

Permita-nos a alegria, a fantasia e a festa.

 

Se nossos sapatos vermelhos o ofendem,

Não há nada que possamos fazer.

Minhas mães, minhas filhas e eu

Fomos feitas para dançar na floresta,

E não para servir seu prazer.

 

O dia há de chegar

Em que não precisarei usar sapatos assim:

Acharei o caminho por conta própria

Como minhas mães o fizeram antes de mim.

 

E o senhor, Sr. Andersen,

Que viveu o enredo de um péssimo romance,

Não castigue as mulheres por seus fracassos

Não é nossa culpa que a vida não lhe deu chance.

 

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: